Casa da Memória Severino Cabral de Lucena - Araruna-PB /Poesias de Pereira da Silva
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Poesias de Pereira da Silva

CONFISSÃO

Eu sei que tudo é vão, nada perene.
E porque tudo a todo instante mude
Pode o Vício amanhã rir da Virtude
E ser burlesco o que já foi solene.

Mas prefiro que o Mundo me condene
Pelo que sou: - ação, gesto, atitude,
Sentimento incomum, palavra rude
Temperamento desigual e infrene.

Para além das virtudes transitórias,
Do Luxo, dos Brasões, do Ouro, das Glórias,
De tudo que é grandeza entre os mortais

Há minha estrela redentora acesa
Iluminando a mística beleza
De sóis e céus que não terminam mais...
De "HOLOCAUSTO", pág. 129




PALAVRAS À MORTE

Falo a ti como à Noite, - a companheira
Das solitudes íntimas da vida:
- Será como uma pérola incendida
Minha lágrima extrema e derradeira.

Eu, t'a consagro, após tanta canseira
Do corpo enferme e da alma consumida,
Certo de que, pesar da humana lida,
Não será menos pura que a primeira.

Talvez por ser quem sou não me consterne
À idéia de dormir em teu regaço
Hospitaleiro como um sol de inverno.

Quando em ti penso e as aflições repasso
Pressinto no meu ser algo de eterno
Como a silente profundez do espaço...
De "HOLOCAUSTO", pág. 135




FELICIDADE

Felicidade, eu não descri de Ti.
No que vi,
No que ouvi,
No que sonhei na flor da juventude,
No víco e na virtude
Nunca pude enconrtrar-te, como quis,
Dama de áureo cabelo e de ar feliz!
Nunca pude encontrar-te. A vida inteira
Vim passando a esperar-te e a cada dia
Pensava: "ela há de vir, essa Estrangeira
que só eu compreenderia.
Ela há de vir, hoje, amanhã... que importa?
Quando menos cuidar
Ela há de vir bater à minha porta
Que se há de abrir, por si, de par em par
E eu lhe direi, vendo-a tão loira e linda:
Há muito eu te esperava. Sê bem-vinda!"
De "ALTA NOITE", pág. 49



CONTRADIÇÃO

A luz e a treva, a lágrima e a alegria,
Os contrastes que a mente encontra em tudo,
Têm sido para o meu profundo estudo
A mais intensa fonte de agonia.

Nunca o tempo passou, noite em dia,
Sem que este Mal não fosse mais agudo
E esta mesma ilusão com que me iludo
Não me iludisse mais que me iludia.

Foi sempre assim. Tenho contado os anos
Pela série dos grandes desenganos
Por que meu coração tem vindo a rastros.

Entretanto lá estás - lá na outra extrema,
Visão da Morte, síntese suprema,
Rindo, a ofertar-me uma lauréola de astros!
De "SOLITUDES", pág. 194





Quantas noites errei como um bandido
Por becos, vielas, ruas da cidade,
Buscando alívio à implacabilidade
Do meu destino percebido!

Por toda a parte a mesma fatuidade
Deste século grande pelo ruído,
Fugaces atitudes da Vaidade,
Gestos sem fins, palavras sem sentido...

Só eu passava em meio a tão corrente,
Taciturno, monótono, retruso,
Impoderado em minha própria mente.

Mas disso não me acuso, nem me excuso:
Preciso era viver entre tal gente
De alma reclusa, coração recluso...
De "SOLITUDES", pág. 180



A IDADE DE OURO

À vila de Araruna

A minha infância! Tenha-a na memória.
Embora os transes trágicos da vida
Levassem meu destino para a glória
Ou para a morte menos percebida,
Essa lembrança luminosa e cara
Jamais de minha mente se apagara.

Ela foi triste, ela foi desolada,
Não teve a graça própria à idade inquieta,
Essa primeira luz da madrugada
Prenuncaiadora do natal de um poeta;
Mas, inda assim, foi minha idade de ouro,
Meu primeiro, meu único tesouro.

Filho do Norte, a Natureza ardente
Amamentou de luz e de ar meu dias
Livres e soltos nesse verde ambiente
De florestas fecundas e sombrias!
Não me ficou somente na retina,
Mas n'alma, essa paisagem que fascina.

Ficaram-me indeléveis nos ouvidos
O vozeio das festas e das feiras,
A hilaridade de cristais partidos
Dos sinos nas matinas domingueiras,
O tropel sertanejo dos comboios,
A prosódia das águas dos arroios.

As essências mais árduas e custosas
não conseguiram dar-me o gozo exato
Do cheiro virginal daquelas rosas,
Do olorante verdor daquele mato...
Quem já gozou emanações iguais
Às desses campos com seus roseirais?

São meu tesouro oculto essas lembranças
Que andam comigo sem que ninguém veja.
Que saudade de um par de rolas mansas
Que pousavam na própria cruz da igreja
E lá ficavam, mudas e serenas,
Em doce idílio debicando as penas!

Como esse par de pombos os velhinhos
Vinham sentar à porta, cismadores,
Enquanto entre os silvedos dos caminhos
Aos rapazes as moças davam flores
E nós, meninos, íamos em bando,
Ver nos currais o gado vir chegando!

Pela tarde bucólica, era lindo
Todo o gado apriscando pressuroso
Para o repouso e como que sentindo
e antegozando, farto, esse repouso!
Todo o redil ficava alvorotado
E era pequeno para tanto gado.

São meu tesouro essas saudades puras
De minha vila fértil e florida
Com seus campos cobertos de verduras,
Roças fartas de frutas e de vida,
Simpleza nos labores e folgares,
Costumes de bondades singulares.

Quanta firmeza nesses homens rudes
E votados nos dias de perigo
A confortar-nos nas vicissitudes
E, conosco, a enfrentar nosso inimigo,
Inspirando-nos fé, dando-nos crença
Em Deus que pune os maus e os bons compensa!

Tenhos nos olhos d'alma aqueles montes
que o Poente inflama de clarões sombrios;
Ouço mais viva a voz daquelas fontes,
Mais surdos os rojões daqueles rios
E muita vez, à noite, horas inteiras,
Escuto, ao longe, o eco das cachoeiras.

......................................................

Oh! minha infância! Tenho-a na memória.
Embora os transes trágicos da vida
Levassem meu destino para a glória
Ou para a morte menos percebida.
Nunca olvidara a minha idade de ouro
Meu primeiro, meu único tesouro.
De "SOLITUDES", pág. 124



APÓSTROFE

Florir e frutescer! bendito fado
O teu, miraculoso pessegueiro!
Florir - para aromar o ambiente inteiro.
Frutescer - para ser glorificado.

Que diferente desse belo estado
O nosso - homens de um século grosseiro
Que nos traz de um janeiro a outro janeiro
Ao peso do trabalho mais forçado!

Degenerou demais a planta humana.
Nem temos tua seiva, árvore ufana,
Nem somos são e livres como os brutos.

Filhos da Terra e tão diversos fomos!
Que beleza a doçura nos teus pomos!
Que tristeza e amargura nos meus frutos!
De "HOLOCAUSTO", pág. 19



REFELTINDO-A...

Noite. Só. Fatigado da leitura,
- Único arrimo em que meu ser discreto
Entre os grandes espíritos procura
Consolação para seu mal secreto.

Dormem todos no lar. Fora, murmura
Mais soturno e sonoro no luar quieto
O rio, satisfeito da ternura
Branca da lua, lírica de afeto.

Meu pensamento, trêmulo de mágoa,
Ouvindo o rio, tomo a fórmula da água,
- De um curso d'água intimamente frio...

E em pleno curso de meu pensamento
Lívido, largo, langue, longo, lento
Lá vais rolando, Lua do meu rio...
De "HOLOCAUSTO", pág. 35



CONSELHOS MÉDICOS

Diz-me o doutor: "Nada demais. Somente
Debilidade. Sangue um pouco impuro.
Vaticino-lhe mesmo um bom Futuro,
Se menos tratos quiser dar à mente.

Tréguas ao livro e ao cérebro! Esconjuro
À Musa, - essa neurose intermitente.
Nenhuma doença pode contra um doente
Rijo de corpo e de ânimo seguro!"

Ouço e sorrio desesperançado.
Não logrará jamais melhor estado
Minhalma tão da sua imcompreendida...

Demais a mais sem minha Musa obscura
E vós, íntimos livros de leitura,
Não poderia suportar a vida!
De "HOLOCAUSTO", pág. 73



RAZÕES DA DOR

Eu não serei amado... eu não serei
Nem o teu pajem, quanto mais teu Rei.

- Teu Rei, lírica e pálida Rainha
Que eu quisera infeliz para ser minha.

Eu não serei amado. E a todo instante
Esta angústia se faz mais angustiante

Por ficares mais linda, mais contente
Mais tão diversa do comum da gente...

Mas nutro intimamente uma esperança:
Quem sabe se a Ventura também cansa,

Também devo cansar? E então, vencida,
Dos gozos ilusórios desta vida

Inda verás que eu fui, por meu pesar,
O teu Amor e não soubeste amar.

Verás, porque teus dias de amargura
Farão maior minha afeição mais pura,

E eu te darei - feliz - a grande prova
Que esta paixão foi cada vez mais nova.

Bem sei que esses desejos não são bons;
Mas a Dor tem também suas razões

E quando nascem de um profundo amor
Não há razões como as da nossa Dor.
De "HOLOCAUSTO", pág. 90



SOL

Eu sol, eu feito Sol! E de manhã bem cedo, bem cedo,
Terei a apoteose eterna do Universo.
Surgiria cantando e até mesmo o rochedo
Vibraria na luz vibrante do meu Verso.

Cioso como um Sultão, de corola em corola,
Os jardins aromais hauriria num hausto;
Desta essência de amor que da terra se evola
Haveria de estar constatemente exausto.

Para mim, que era Luz, tudo seria claro.
Não haveria mais, nunca mais, uma esfinge
E somente eu teria esse desplante raro
De cingir num clarão tudo o que o mundo cinge.

Eu sol, eu feito Sol! E ver lá do Alto o mundo
Como um pequeno grão de areia ou um ponto de i,
E penetrar no mar de todos o mais fundo
E, no fundo do mar, ver o que nunca ví!

Ai o meu fulvo ideal! de auscultar os refolhos
Mais íntimos ou ver tudo a meus pés de rastros!...
E às horas vesperais teria ante os meus olhos
A estranha procissão dos Círculos dos Astros!

E outros mundos então surgiram da Treva.
- Mundos feitos dos tons essenciais das coisas,
E com beijos de amor feitos dos beijos de Eva
E volúpias sutis de asas de mariposas...

Mundos que eu nunca vi, mas que há de certo nesses
Altos onde o esplendor do sol tudo percute,
Mundo feito de sois, de cristais e de messes
Loiras, loiras, talvez, mais que os trigais de Ruth.
De "VAE SOLI!"



NOVE DE NOVEMBRO

Um ano a mais... dezenas de milhares
De dias idos... e que dias rudes
Com seus contrastes, mil vicissitudes,
Pesares e pesares e pesares!

Que de gestos, palavras, atitudes,
Verdadeiros ou falsos, pelos ares!
Que prazeres comuns, e singulares,
Inexoráveis noites de inquietudes!

Um ano a mais e menos na vã lida.
- Mais para a morte, menos para a vida
Mais diminuta, quanto mais avança...

Berço mais longe, túmulo mais perto,
O coração ficando tão deserto
E solitária a estrela da Esperança...
De "SOLITUDES", pág. 178



MAXIMUS DOLOR

A miséria do corpo! Mas que importa
A miséria do corpo!? Há tanto leito...
A vida é larga. O corpo, muito estreito.
Há chão demais para a matéria morta.

A miséria que nada mais conforta
É ter um nobre amor num pobre peito,
Sabendo que por nobre e por feito
Alma nenhuma quis abrir-lhe a porta.

Esse eterno contraste desolante,
Que não resolve o engenho mais arguto
E aumenta, intimamente, instante e instante,

Ei-lo, o infortúnio máximo, absoluto,
A cuja idéia fixa e dominante
A alma se fecha no seu próprio luto...
De "SOLITUDES", pág. 193



EU FICAREI COMIGO...

Eu ficarei comigo unicamente
Comigo e minhas mágoas,
Como um pássaro mudo, olhando as águas,
À margem da corrente.

Eu ficarei comigo e essa ternura
Que eu não posso conter
Sempre que escuto a voz de uma criatura
Que não teve um minuto de prazer.

Eu ficarei comigo e essa tristeza
Do meu senso cristão
Num século em que é vítima indefesa
O homem de coração.

Eu ficarei comigo e o desencanto
De toda a minha vida
Sentida ou ressentida
De ter ou não ter amado tanto.

Eu ficarei comigo e o meu destino
Que de si não se ufana,
Porém não descreu que um beijo divino
Compensará tanta tristeza humana.
De "ALTA NOITE", pág. 68



FINIS

Enfim, depois de tanta caminhada,
Na qual nenhum minuto de um só dia
Foste menos por tudo e em tudo amada
Deixas-me, Vida ingrata, a companhia.

Não te constranjo; pois, bem sei que nada
Do teu gênio mundano merecia
Minhalma cada vez mais impregnada
De beatitude e de melancolia...

Que vás de vez! Digo-te adeus sem mágoa
Sem dor na voz, sem olhos rasos dágua,
Nem sentimento, nem ressentimento;

Porque, pensando certo, justo e fundo,
Tu não tens culpa que meu pensamento
Fosse esse espelho côncavo do mundo!
De "ALTA NOITE", pág. 31



INCOGNITUS

Anda comigo uma tristeza estranha...
Tristeza? não. Saudade inconseqüente
De um país que uma luz de lua doente
Como os minguante outoniços banha....

Essa idéia imanente me acompanha
De tal maneira o espírito vidente
Que já sofro da falta desse ambiente
De clima luminoso e ar de montanha.

Vivi alhures?... Guardo, impercebida,
Como na calma azul de um céu profundo
A ingênita memória de outra vida?

Quem sabe?... Um senso incógnito me diz
Que de outra forma viva e noutro mundo
Pode alguém ser feliz... e eu fui feliz...
De "SENHORA DA MELANCOLIA", pág. 43



PAIXÃO

Candura de te amar como uma criança,
Pura, candidamente,
Sem, sequer, esperança
De que saibas jamais do meu amor ardente

Candura de sentir que neste mundo,
Que é da carne ou do instinto,
Ninguém sente mais fundo
Amor ideal e real do que este amor que eu sinto!

Candura de guardar o teu semblante
No meu íntimo afeto
Como um lago discreto
Guarda a noturna flor azul de um céu distante!

Candura de passar a noite inteira
Sozinho, a imaginar,
que fôra um céu meu lar
Se fosses, meu amor, a minha companheira!

Candura de ir contigo em pensamentos
Por floridos lugares,
Dizendo singulares
Rimas de exaltações e enternecimentos!

Candura de sofrer a sós, calado,
Este divino tédio
De um amor sem remédio
E tanto mais feliz quanto desventurado!

Candura de pensar que um dia, enfim,
Embora estando eu morto,
O teu olhar absorto
Há de me ler e ver quanto eu te amei assim!
De "BEATITUDES", pág. 98



ENVELHECENDO...

Hoje, olhei-me no espelho. Que mudanças
De desenho e feições a do meu rosto!
Que facies cavo, magro, descomposto
E diferente do que tinha em criança!

Como o tempo é minaz, a vida cansa
E ficamos no mundo ao contra gosto
Sentindo o próprio corpo mal disposto
E perdendo em nós mesmos a confiança!

Como nos punge, no declínio morno
Do nosso Dia, ver a vida em torno
Arder nas mesmas chamas imortais!

Que contingência a de ficar-se velho,
Pressentindo que um dia, à luz do espelho,
O nosso olhar não nos conhece mais!
De "BEATITUDES", pág. 15



CANÇÃO AUSENTE

Penso em ti neste instante! Que amargura!
Estás tão longe e há tanta noite no ar!
Sem querer, a minh'alma conjectura
Tais coisas que receia revelar!

Penso que estás sozinha, consumida,
De olhar aflito pelo meu olhar.
Temo não fosse a tua despedida
Como a de alguém que nunca há de voltar...

Curtindo a dor da ausência tudo penso.
Não vás, por me não veres, olvidar
A minha dor e o meu amor imenso,
Causa do teu como do meu pesar.

Não me vás esquecer! Temo a inclemência
Do destino que é cego de tatear.
E eu tenho tanto medo de uma ausência
Como de um barco à vela sobre o mar.

Penso em ti neste instante. Que amargura!
Estás tão longe e há tanta noite no ar!
Que de coisa minh'alma conjectura!
Que anseio de ter asas para voar!
De "O PÓ DAS SANDÁLIAS", pág. 114


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